sábado, 6 de novembro de 2010

"Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma?
(...)
Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre os olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro da poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. "Oh, Deus, quem será meu par neste mundo?
Clarice Lispector

Homens


"Um homem só se conhece bem em duas situações: Quando está sob a ameaça de uma arma, ou quando quer conquistar uma mulher"
Luís Fernando Veríssimo

Totalmente entorpecente


O fato é que eu havia me viciado em Dave (em minha defesa, posso dizer que ele havia possibilitado isso, já que era uma espécie de homem fatal) e, agora que sua atenção estava desaparecendo, sofria as consequências facilmente previsíveis. O vício é a marca de toda história de amor baseada na obsessão. Tudo começa quando o objeto de sua adoração lhe dá uma dose generosa, alucinante de algo que você nunca ousou admitir que queria - um explosivo coquetel emocional, talvez, feito de amor estrondoso e louca excitação. Logo você começa a precisar dessa atenção  intensa com obsessão faminta de qualquer viciado. Quando a droga é retirada, você imediatamente adoece, louco e em crise de abistinência (sem falar no ressentimento para com o traficante que incentivou você a adquirir seu vício, mas que agora se recusa a descolar o bagulho bom - apesar de você saber que ele tem algum escondido em algum lugar, caramba, porque ele antes lhe dava de graça). O estágio seguinte é você esquelética e tremendo em um canto, sabendo apenas que venderia sua alma ou roubaria seus vizinhos só para ter aquela coisa mais uma vez que fosse.”



Elizabeth Gilbert

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida


"... às vezes você conhece uma pessoa maravilhosa, mas apenas por um rápido instante. Talvez em férias, num trem ou até numa fila de ônibus. E essa pessoa toca sua vida por um momento, mas de uma maneira especial. E, em vez de lamentar o fato de ela não poder ficar com você por mais tempo ou por você não ter a oportunidade de conhecê-la melhor, não é mais sensato ficar satisfeito por ter chegado a conhecê-la um dia?"


Marian Keyes

Olhos cegos




"As paixões do coração humano, como as divide e enumerou Aristóteles, são onze: mas todas elas se reduzem as duas capitais: amor e ódio. E estes dois afetos cegos são os dois polos em que se resolve o mundo, por isso, tão mal governado. Eles são os que pesam os merecimentos, eles os que qualificam as ações, avaliam as prendas, eles os que repartem as fortunas. Eles são os que enfeitam as fortunas. Eles são os que enfeitam ou decompõem, eles os que pintam ou despintam os objetos, dando e tirando, a seu arbítrio, a cor, a medida, e ainda o mesmo ser e subsistância, sem outra distinção ou juízo que aborrecer ou amar. Se os olhos vêem com amor o corvo é branco, se com ódio, o cisne é negro, se com amor, o demônio é famoso, se com ódio o anjo é feio
 (...)
Por isso se vêem com perpétuo clamor da justiça os indignos levantados e as dignidades abatidas, os talentos ociosos e as incapacidades com mando, a ignorância graduada e a ciência sem honra...
(...)Pode haver maior violência da razão ? Pode haver maior escândalo da natureza?... Pois tudo isso é o que faz e desfaz o a paixão dos olhos humanos, cegos quando se fecham e cegos quando se abrem, cegos quando amam e cegos quando aborrecem, cegos quando aprovam e cegos quando condenam, cegos quando não vêem e quando vêem muito mais cegos."


Pe. Antonio Vieira